ESG como fórmula da devastaçã: O Decoupling entre Certificações e Realidade Ambiental nos Casos Natura e Sanepar

ESG como fórmula da devastaçã: O Decoupling entre Certificações e Realidade Ambiental nos Casos Natura e Sanepar

por Jerônimo Augusto Barreto Baptista -
Número de respostas: 1

A Natura e a Sanepar exemplificam a farsa contemporânea do ESG com certificações e prêmios que mascaram devastação ambiental e violações de direitos das comunidades locais.

A Natura, portadora do selo B Corp desde 2014, construiu sua narrativa sobre bioeconomia regenerativa, porém a descontinuação do perfume Amor América por "questões mercadológicas", porém utilizava a Paramela (Adesmia balsamica), espécie endêmica da Patagônia cuja extração industrial para fins cosméticos comprometeu sua sobrevivência na região, caracterizando biopirataria sob a bandeira da valorização da biodiversidade, a ponto de afetar outra multinacional, a Laszlo, que vendia esse óleo essencial.

Simultaneamente, a empresa ostentava o mais alto padrão de desempenho social e ambiental, enquanto sua cadeia de suprimentos promovia a devastação flora nativa da Patagônia.

A Sanepar, por seu turno, acumula prêmios de "Líderes Regionais por ESG" e figura em rankings de destaque nacional, porém sofre condenações judiciais contínuas por danos morais gerados pelo "futum" das estações de tratamento de esgoto Guaraituba e São Jorge, que afetam a saúde respiratória e o bem-estar de comunidades vizinhas.

O mau cheiro crônico que invade as casas contrasta absurdamente com o prêmio de "responsabilidade ambiental", revelando que o ESG funcionou como escudo reputacional contra falhas operacionais básicas e entope o Judiciário com demandas que poderiam ter sido evitadas se respeitassem os moradores.[1][2][3][4][5][6][7]

Essa dissonância entre comunicação institucional e desempenho real é academicamente classificada como greenwashing estratégico ou decoupling. Ali, Gupta e Elkhashen, em seu estudo "Greenwashing Games: Playing the ESG Mandates" (2025), demonstram que a pressão por divulgações ESG intensificou a inflação de comunicação simbólica: empresas aprenderam a jogar o jogo, inflacionando selos, certificações e relatórios justamente para mascarar uma performance ambiental medíocre ou estagnada.

Complementando essa análise, Zhan, Zhan e Li publicaram "The Cost of ESG Decoupling: How Misaligned Disclosures Undermine Corporate Sustainability?" na SAGE Open (2025), demonstrando empiricamente como divulgações desalinhadas com a realidade operacional não apenas enganam investidores e reguladores, mas comprometem a verdadeira transformação ambiental. O fenômeno revela que selos como B Corp e prêmios de ESG tornaram-se commodities, taxas de licenciamento social onde a empresa paga pela reputação para comprar o silêncio sobre floras devastadas ou ar poluído.[8][9]

A "farsa" reside, portanto, não apenas na hipocrisia de casos isolados, mas em um sistema onde a métrica de sucesso é o relatório de sustentabilidade e não a realidade do território. Natura perfuma a biopirataria com narrativas ancestrais enquanto Sanepar celebra prêmios ambientais enquanto comunidades sofrem poluição do ar. Enquanto a agenda ESG continuar funcionando como ferramenta de greenwashing corporativo em vez de instrumento de transformação real, a sociedade permanecerá sendo sistematicamente enganada por empresas que monetizaram a pauta ambiental sem enfrentar suas externalidades negativas.


REFERÊNCIAS:


[1] Natura Cosméticos. "B-Corp: Certificação comprova que Natura alia crescimento e promoção do bem-estar social e ambiental." Blog Sustentabilidade Natura. https://www.natura.com.br/blog/sustentabilidade/b-corp-certificacao-comprova-que-natura-alia-crescimento-e-promocao-do-bem-estar-social-e-ambiental


[2] BiodiversidadLA. "Denuncian a multinacional por depredación de plantas nativas." https://www.biodiversidadla.org/Noticias/Denuncian_a_multinacional_por_depredacion_de_plantas_nativas


[3] Barilochense. "La Paramela: una planta para conocer y proteger." https://www.barilochense.com/salud/plantassalud/la-paramela-una-planta-para-conocer-y-proteger


[4] Governo do Estado do Paraná. "Sanepar recebe Prêmio Líderes Regionais por ESG e responsabilidade ambiental." https://www.parana.pr.gov.br/aen/Noticia/Sanepar-recebe-Premio-Lideres-Regionais-por-ESG-e-responsabilidade-ambiental


[5] Sanepar. "Sanepar está entre as 50 empresas mais relevantes do Brasil na Agenda ESG." https://www.sanepar.com.br/noticias/sanepar-esta-entre-50-empresas-mais-relevantes-do-brasil-na-agenda-esg


[6] Tribunal de Justiça do Paraná. "Acórdão-0005408-47.2012.8.16.0028." https://portal.tjpr.jus.br/jurisprudencia/j/4100000032970201/Ac%C3%B3rd%C3%A3o-0005408-47.2012.8.16.0028


[7] Tribunal de Justiça do Paraná. "Acórdão-0001449-12.2014.8.16.0024." https://portal.tjpr.jus.br/jurisprudencia/j/4100000021296081/Ac%C3%B3rd%C3%A3o-0001449-12.2014.8.16.0024


[8] Ali, Amjad, Jairaj Gupta, and Emad Elkhashen. "Greenwashing Games: Playing the ESG Mandates." Available at SSRN 5226553 (2025).


[9] Zhan, Xiaoyi, Yong Zhan, and Guangjin Li. "The Cost of ESG Decoupling: How Misaligned Disclosures Undermine Corporate Sustainability?." SAGE Open 15.3 (2025): 21582440251369170.


Em resposta à Jerônimo Augusto Barreto Baptista

Re: ESG como fórmula da devastaçã: O Decoupling entre Certificações e Realidade Ambiental nos Casos Natura e Sanepar

por Tiago Alves Dantas -
Concordo plenamente com o que você trouxe. Casos como o da Natura e da Sanepar mostram que, em muitas empresas, o ESG virou um selo de marketing em vez de um princípio ético que orienta decisões reais. Quando a pauta ambiental e social é usada apenas como vitrine, perde totalmente seu propósito transformador. O ESG não deveria ser tratado como prioridade momentânea nem como estratégia para ganhar prêmios, mas como um princípio estruturante, capaz de guiar a conduta da organização mesmo quando isso não gera aplauso imediato. Enquanto empresas enxergarem ESG como ferramenta reputacional e não como responsabilidade moral, continuaremos vendo distorções entre discurso e prática.