A ciência está falhando em comunicar o próprio conhecimento?
Vivemos um momento paradoxal: nunca houve tanta produção científica, tantas tecnologias e tanto acesso à informação. Ao mesmo tempo, observamos o crescimento de movimentos anticientíficos, a disseminação de fake news e a desconfiança em relação a conhecimentos que foram construídos ao longo de décadas de pesquisa. Isso nos leva a refletir não apenas sobre quem nega a ciência, mas também sobre os desafios da própria ciência em dialogar com a sociedade.
A partir do que estudamos na Unidade 1, entendo que o senso comum e a ciência possuem uma relação histórica de complementaridade. Muitos conhecimentos científicos surgiram justamente da observação de práticas cotidianas e da tentativa de validar ou refutar explicações oriundas do senso comum. O problema ocorre quando crenças, opiniões ou informações sem evidências passam a substituir fatos cientificamente verificados, comprometendo a capacidade da sociedade de tomar decisões baseadas em evidências.
O vídeo sobre fake news e o movimento antivacina ilustra claramente esse fenômeno. Um aspecto que chamou minha atenção foi que diversas pessoas não conseguiam identificar a origem das informações que compartilhavam, utilizando justificativas como “vi na internet”, “recebi por mensagem” ou “ouvi falar”. Isso evidencia que o acesso à informação não significa necessariamente acesso ao conhecimento. Enquanto a ciência exige evidências, validação por pares e rastreabilidade das fontes, muitas informações disseminadas nas redes sociais são aceitas apenas por parecerem plausíveis ou por confirmarem crenças já existentes.
Nesse contexto, considero que o crescimento da anticiência não pode ser explicado apenas pela desinformação. Existe também uma questão estrutural relacionada ao acesso à educação e à alfabetização científica. Muitas vezes, o conhecimento científico é produzido em linguagem técnica, circula predominantemente em ambientes acadêmicos e permanece distante da realidade cotidiana das pessoas. Como consequência, explicações simplificadas, ainda que equivocadas, tornam-se mais fáceis de compreender, compartilhar e acreditar.
Scheufele e Krause (2019) argumentam que a desinformação científica é influenciada não apenas pela capacidade individual de identificar informações falsas, mas também pelos ambientes sociais e informacionais aos quais as pessoas estão expostas. Já Gu e Feng (2022) demonstram que o engajamento com a ciência e a alfabetização científica aumentam significativamente a capacidade de reconhecer informações equivocadas e tomar decisões fundamentadas em evidências. Esses estudos reforçam que a educação e a aproximação entre ciência e sociedade são fundamentais para reduzir a vulnerabilidade à desinformação.
Por fim, acredito que o enfrentamento da anticiência depende não apenas da produção de mais conhecimento científico, mas também da democratização do acesso ao conhecimento, do fortalecimento do pensamento crítico e da melhoria da comunicação científica. Se a ciência tem como propósito aprimorar a vida humana, ela precisa ser compreendida por aqueles que dela se beneficiam. Caso contrário, continuaremos observando o fortalecimento de narrativas simplificadas que enfraquecem a relação histórica entre senso comum, ciência e desenvolvimento de soluções capazes de promover melhorias concretas para a sociedade.
SCHEUFELE, D. A.; KRAUSE, N. M. Science audiences, misinformation, and fake news. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), v. 116, n. 16, p. 7662–7669, 2019.
GU, C.; FENG, Y. Influence of Public Engagement with Science on Scientific Information Literacy During the COVID-19 Pandemic: Empirical Evidence from College Students in China. Science & Education, v. 31, n. 3, p. 619–633, 2022.