A relação entre senso comum e ciência sempre foi tensa, mas produtiva. O senso comum levanta perguntas; a ciência sistematiza respostas. O problema surge quando essa ordem se inverte quando a intuição popular passa a ser usada para deslegitimar evidências científicas dentro de espaços de decisão política.
Vemos isso acontecer de forma concreta: gestores que recusam protocolos de saúde baseados em evidências, legisladores que ignoram consensos climáticos, líderes que promovem tratamentos sem eficácia comprovada em plena pandemia. O anticiência, nesses casos, não é apenas uma crença individual vira política pública. E políticas públicas baseadas em negacionismo têm vítimas reais.
O que torna esse fenômeno ainda mais preocupante é que ele não nasce necessariamente da ignorância. Parte significativa das pessoas que rejeitam o conhecimento científico tem acesso à informação o que falta não é dado, é confiança. Confiança em instituições que, em alguns momentos históricos, realmente falharam ou foram capturadas por interesses que nada tinham a ver com o bem comum.
Isso não justifica o negacionismo, mas ajuda a entender por que combatê-lo com mais dados nem sempre funciona. A ciência precisa recuperar sua credibilidade não apenas publicando resultados, mas sendo transparente, acessível e genuinamente comprometida com a coletividade. Quando isso não acontece, o espaço vazio é preenchido pelo senso comum e aí ele deixa de ser ponto de partida para se tornar ponto de chegada, com consequências que vão muito além do debate acadêmico.