O movimento chamado anticiência ou negacionismo científico pode ser entendido como a recusa em aceitar fatos científicos já sustentados por evidências, muitas vezes substituindo-os por crenças, opiniões pessoais ou informações falsas. O Butantan resume isso como a recusa em aceitar a validade de fatos científicos apesar das evidências, e a Fiocruz tem tratado a anticiência como um fenômeno ligado à desinformação e a ataques à saúde pública e à própria confiança nas instituições científicas.
Na minha visão, esse movimento prejudica muito a relação histórica entre senso comum, ciência e desenvolvimento de soluções. A apostila mostra que o senso comum e a ciência podem se complementar, porque muitas perguntas da ciência nascem justamente da experiência cotidiana. O problema começa quando o senso comum deixa de ser ponto de partida para reflexão e passa a ser usado para negar evidências consolidadas. Nesse momento, em vez de complementar a ciência, ele passa a competir com ela sem método, sem verificação e sem responsabilidade com os impactos sociais.
Isso tem efeito direto na vida humana, porque políticas públicas, soluções em saúde, educação, tecnologia e segurança dependem de conhecimento confiável. Quando fake news e discursos anticientíficos ganham força, decisões importantes deixam de ser tomadas com base em evidências e passam a ser influenciadas por medo, crença ou conveniência. O resultado pode ser atraso em políticas, resistência a soluções comprovadas e piora da qualidade de vida coletiva. A própria Fiocruz e órgãos públicos têm associado desinformação e negacionismo a riscos concretos para a ciência e para a sociedade.
Por isso, entendo que defender a ciência não significa desprezar a sabedoria popular, mas sim reconhecer que o conhecimento científico tem um papel essencial: testar, validar, corrigir e aprimorar aquilo que a sociedade pensa e pratica. O desafio atual não é escolher entre senso comum e ciência, mas impedir que a anticiência destrua essa relação de complementaridade e enfraqueça a produção de soluções reais para a vida humana.